Quais livros têm ideias afinadas com os desafios da Economia Verde?

“Dos 50 livros, quais os que têm ideias mais afinadas com os desafios da Economia Verde atual?”

Essa pergunta foi feita durante o evento de lançamento do livro “Os 50 + Importantes Livros em Sustentabilidade” por Ricardo Voltolini, editor da revista Ideia Sustentável. Quem respondeu foi o professor João Salvador Furtado. Confira a resposta:


Todos os 50 livros têm algo – alguns muito mais – com o que hoje está sendo chamado (embora não inteiramente decodificado) de Economia verde e o que está acontecendo em relação aos temas Sustentabilidade e Desenvolvimento Sustentável.

Mesmo no caso de livros como o Ambientalista cético, embora eu pense que o autor já deve ter mudado de ideia e/ou abrandado seu próprio pessimismo em relação aos que ele chama de pessimista.

As sinopses e ideias-chave de cada livro servem de alerta: vamos pensar fora da caixa.  Especialmente para aqueles que acreditam que sabem (ou querem saber) o preço de tudo, mas, não sabendo o valor de nada… E vice-versa.

A Economia verde – pregada pelo PNUMA e defendida pelos que adotam o título sem ler os postulados – aposta na precificação dos recursos naturais para que as pessoas com poder tomem decisões.

Dessa maneira, precificar agrada aos adoradores de números da economia em curso e a outros que nem sequer querem pensar na potencial conveniência do uso não necessariamente criterioso do Princípio da Precaução para os bens comuns e os recursos críticos.

Da maneira como foi proposta pelo PNUMA (espero que as discussões na Rio+20 amplifiquem o entendimento da proposta), a Economia verde é mais uma tentativa (importante, a propósito) para convencer os descrentes e necessária para pregar mudanças: da economia neoclássica, inclusive da economia ecológica e em especial da economia ambiental, para a economia azul (em homenagem à cor do Planeta Terra) ou da sabedoria.

A expressão “economia azul” é usada, neste texto, para atender a definição inspirativa da Comissão Brundtland para Desenvolvimento Sustentável e da proposta de Resultado Final Tríplice (Triple Bottom Line).

Há muitas pessoas descaracterizando e desconstruído ambos os conceitos, afirmando a falta de ferramentas objetivas para o primeiro e a combinação conveniente dos elementos do RFT: People Planet Profit; People Profit Planet; Planet People Profit e Profit People Planet.

Economia azul – aqui considerada – não leva em conta a sequência dos componentes, mas estabelece que, para a sustentabilidade dos humanos no Planeta, é indispensável que as atividades humanas sejam na direção e máxima eficiência do equilíbrio das dimensões econômica, ambiental e social.

A “dimensão econômica” consiste na gestão de trocas materiais e imateriais e dos resultados dessas, que são praticadas pelos humanos, com ou sem fins lucrativos, envolvendo a extração e uso de recursos da natureza, para fins de produção e consumo de bens e serviços na sociedade humana.

“Valor” abrange amplo espectro de indicadores de natureza econômica, social e ambiental, que atendam aos investidores, mas também contribuam para o atendimento das necessidades básicas ou essenciais de pessoas, famílias, comunidades e sociedades em diferentes escalas e regiões do Planeta, notadamente na base da pirâmide e sem renda, com equidade, inclusão, justiça e segurança alimentar, por exemplo.

A “dimensão ambiental” corresponde à capacidade de carga, de limite ou de suporte da Terra  – do ponto de vista da proteção, conservação e recomposição de: (i) estoques naturais; (ii) capacidade de bioconversão natural dos resíduos, emissões e despejos de materiais, em decorrência das atividades humanas; e (iii) demais serviços ecossistêmicos como regulação do clima, produção e qualidade da água, biofertilidade do solo, controle de enchentes, manutenção da cadeia alimentar, controle natural de pragas e vetores, entre outros.

“Ambiente” engloba os compartimentos ar, água, solo e subsolo – estejam estes ocupados ou não por humanos – incluindo-se: os ecossistemas com os recursos naturais renováveis (biodiversidade e serviços ecossistêmicos) e não renováveis; a energia radiante solar e de outras fontes renováveis (eólica, marés, térmica, biomassa); a água, independente do entendimento se a água é ou não recurso renovável.

Quando à terminologia Economia azul, esta foi usada pela organização Pacific Small Island Developing States, para representar “a conservação, gestão sustentável e compartilhamento equitativo dos recursos oceânicos e marinhos como componente integral da Economia verde, com o objetivo de permitir o desenvolvimento econômico sustentável e erradicação da pobreza” (tradução livre) http://www.uncsd2012.org/rio20/index.php?page=view&type=510&nr=552&menu=20 .

Também é oportuno registrar que a expressão “Blue Economy” está protegida por registro de propriedade, de Gunter Pauli (http://www.blueeconomy.eu/the_community.php). A proposta foi objeto de publicação de livros em vários países e é definida, especialmente, com base em princípios físicos; soluções em cascata e interconectividade, inspiradas no funcionamento dos ecossistemas, fechamento de ciclos (reuso, reaproveitamento, reciclagem) para representar “a new way of designing business: using the resources available in cascading systems, where the waste of one product becomes the input to create a new cash flow. In this way, jobs are created” (“uma nova maneira de desenhar negócios: usar os recursos disponíveis num sistema de cascada, em que o resíduo de um produto se torna insumo para criação de um novo fluxo de caixa. Dessa forma, trabalhos são criados” – tradução livre).

De qualquer forma, será preciso a transformação da economia usual para aquela capaz de criar valor sustentável (não apenas dinheiro) para todas as partes, entre as quais os ecossistemas (a Terra) são relevantes, em que pese toda a capacidade humana para apelar para a inovação econômica (como prevalece), social (embora nem todos os componentes da sociedade sejam atendidos) e ambiental (apesar dos recursos naturais não serem tratados como a galinha dos ovos de ouro).

A proposta de Economia verde é um passo oportuno, mas precisa ser aprimorada e redesenhada, porque se baseia em fundamentos de mercado de competição por preço. Parte da expectativa de que a geração de negócios, resultante de investimentos em processos ambientalmente amigáveis e do uso de recursos renováveis (mesmo com proteção ecológica) gerará empregos verdes. Como isso, haverá renda e benefícios sociais. Trata-se de expectativa com arcabouço estratégico duplo (operacionalmente econômico-ambiental) e efeito derivado social.

A agenda da Economia verde contempla – embora parcialmente – ecoeficiência.  Está mais para Produção Mais Limpa (eficiência de uso de recursos) combinada com Ecodesign e Fator 4 (outro livro presente entre os 50). Refere-se aos criadores do conceito, sob o patrocínio do WBCSD, mas, não há referência de como se chegar ao indicador (coeficiente) de coeficiente resultante da equação na qual o numerador é um elemento contábil que representa o valor criado e o denominador outro número contábil, que representa o impacto ou efeito ambiental derivado da criação do valor.

O mais comum é não incluir (como é em geral feito pelos que se dizem praticantes de ecoeficiência) o parâmetro previsto na criação do conceito, o limite estabelecido pela capacidade de carga do Planeta. A expressão Capacidade de carga aparece somente duas vezes no documento do PNUMA de 630 páginas: uma referência genérica, casual e outra relativa ao turismo. Ponto final.

Nada há a respeito de indicadores para ações direcionadas para a preservação e recomposição da capacidade de carga, especialmente a que está perdida ou comprometida em determinadas áreas subnacionais. Zero de referência para o sinônimo, capacidade de suporte.

Outra evidência da falta de proposta estratégica sistêmica é em relação à tríade “econômico, ambiental e social”. A sequência “social, econômica e ambiental” aparece apenas três vezes: duas genéricas e uma relacionada à Matriz de indicadores T-21 World, com o comentário de que “se trata de modelo global, sem desagregação regional ou nacional, apesar de desenvolvido rotineiramente para países específicos e usado em outras escalas como para comunidades” (tradução livre). Nada mais.

Por que, então, todos os 50 livros resenhados são importantes? Simplesmente por que ajudam a construção de modelo mental para aprimorar os conceitos propostos pela Economia verde, onde falta:

  • a visão de sistema integrado econômico-ambiental-social;
  • a sinalização de pontes estratégicas, institucionais e políticas para que a Economia verde (na maneira como está sendo proposta)
  • e recomendações objetivas para a construção da rota para a sustentabilidade dos humanos no Planeta, por tempo indeterminado, embora seja previsto, biologicamente, que  a espécie humana será substituída – mesmo que leve cerca de 1,5 milhão de anos.

A propósito, o PNUMA reconhece que

É a Economia que resulta na melhoria do bem-estar humano e igualdade social, ao mesmo tempo em que reduz significativamente os riscos ambientais e as escassezes ecológicas.

O aumento de renda e novos empregos derivam de investimentos públicos e privados que reduzam emissão de carbono, reforcem a eficiência energética e de recursos e previnam a perda de biodiversidade e de serviços ecossistêmicos.

www.unep.org/greeneconomy/GreenEconomyReport/tabid/29846/Default.aspx

“The concept of a green economy does not replace sustainable development; but there is a growing recognition that achieving sustainability rests almost entirely on getting the economy right”. (“O conceito Economia verde não substitui Desenvolvimento Sustentável; é um crescente reconhecimento que o alcance da sustentabilidade está quase todo em conduzir a economia da maneira certa” – tradução livre) – PNUMA.  Towards a Green Economy. 2011, p.16.

Fazendo de conta que o raciocínio cartesiano, pragmático é o que vale, pelo menos na escala até o ano 2050; que esta história de gerações futuras é coisa para filósofos, espiritualistas e ecodesenvolvimentistas; e que o tempo futuro profundo é coisa de ambientalista deslumbrado – há quem queira especular qual seria a cor para melhor representar o melhor tipo de economia. Seria Verde, Verde azulada ou Azul, mas, que seja capaz de botar juízo na Economia marrom atual – fim-de-tubo, poluição, desperdícios, externalidades danosas e bottom line, orientada predominantemente para a remuneração dos acionistas.

Somente com novo modelo econômico (aprimorado a partir da Economia verde), novos e diferentes processos, práticas e produtos é que os humanos e seus sucedâneos evoluirão para melhor – por tempo indeterminado – se esta servir para interpretar o oximoro Desenvolvimento Sustentável.

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